terça-feira, 23 de setembro de 2008

MEMÓRIAS DA TERRA CHÃ

Se bem me lembro, estávamos no início do ano lectivo de 80/81.
Eu já me sentia um tipo importante, já estava no segundo ano, partilhava desde o ano transacto o quarto com o Alfredo Borba no Lar Masculino. Éramos poucos, mas bons amigos!
Tinha começado a reconstrução, a Ilha renascia após o terramoto de 80. O Liceu de Angra tinha falta de professores, e eu consegui um horário de 20 horas. Como eu, outros colegas já se aventuravam nesta duplicidade de ser professor e estudante, responsável e irreverente.
Soubemos que estavam para chegar uma nova leva de 20 novos colegas, caloiros. Entre o segundo e o quinto ano, éramos pouco mais que 25, por isso ansiávamos, todos, pela chegada dos caloiros. Foi preciso conceber um programa de recepção, instituir uma praxe académica, construir uma academia, enfim, lançar as bases de tudo.
Um plano ad hoc simples e eficaz, resultou duma reflexão matutada à mesa da batota no Lar Masculino. Não havia televisão, nem cantina universitária, nem quase nada. Para além das idas à Base Americana, debaixo da liderança do Fino, abastecer de gasolina barata, e umas saídas à discoteca Twin’s, o resto do tempo passávamos a jogar à lerpa. Semanas a fio, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, aquela mesa tinha gente a jogar à lerpa. Foi aí que surgiu a primeira ideia peregrina.
- Marques, tu vais lá fora, recebes o caloiro, traze-lo para o Lar, convida-lo a entrar, ele abre a porta, e nós todos aqui sentados damo-lhe as boas vindas.
Assim seria. Mas antes havia que testar o plano. Já era tarde, ouviu-se chegar um carro, era o Tenente Barbosa, que chegava ou do quartel, ou das aulas nocturnas que dava no Liceu. O Barbosa era uma figura ímpar, aliás como cada um de nós, e mais tarde se veio a confirmar. Fugimos todos para os quartos, luzes apagadas, espreitávamos pelas janelas, expectantes. O senhor Tenente, fardado, impecável, empurrou a porta entreaberta, e zás... caiu-lhe uma bacia azul cheia de água e detergente pela cabeça abaixo. Não é preciso contar o que se passou a seguir. O Barbosa espumava, o pessoal ria, o plano funcionava!
Dia após dia, enquanto os caloiros não chegavam, a puta da bacia estava em cima da porta, era preciso muito cuidado. Mas como éramos poucos, já todos sabiam da marosca, a emoção esvaneceu-se, até que um dia, começaram a cair finos jactos de água do tecto dos quartos, em cima das cabeças do pessoal. Quem foi, que deixou de ser?!
O Fino e o seu grupo, Manuel Joaquim, Gualberto, Valadão etc. resolveram investigar, e subiram ao sótão, e um deles levou com uma trave na testa, arremessada pelo meliante da seringa. Mesmo assim não descobriram quem era, havia várias entradas para o sótão pelas casas de banho no topos das alas do Lar e o engraçadinho escapou.
Chegava eu já tarde de Angra, empurrei com cuidado a porta do lar, não havia bacia, mas na sala, na eterna mesa da batota, estava instalada uma grande discussão. O Bioucas, sentado impávido e sereno num daqueles sofás rotos, ouvia calado as interjeições do grupo, mas petulante, negava a autoria dos jactos de seringa e enfrentou o Fino. Este, irritado, levantou-se da mesa, e com ar ameaçador:
- Ó seu cara de caralho, se tornas a repetir isso, espeto-te um murro no meio dos olhos!
Fez-se um silêncio de morte! Eu fiquei ali parado a ver o que aquilo dava. Ai de quem se metesse com o grupo do Fino! Até os mosquitos se ouviam! Foram momentos de gelar a espinha, até que calmamente, olhos nos olhos, sentado no seu sofá roto, o Biocas respondeu:
- O caralho é pai de todos, dá aqui um beijinho ao teu tio!
Foi a risada geral. O Fino sentou-se, e voltou tudo ao normal.
Fui para o quarto. O Alfredo já dormia, sempre com a mão nos tomates, valiosos tomates aqueles. Sem fazer barulho, reparei, em cima da secretária, num atlas aberto com as bandeiras dos países do mundo que o Alfredo sabia de cor, e vários esboços da bandeira dos Açores independentes. Enfim, a pancada do Alfredo era outra, cada um de nós tinha a sua.
Saí para ir à casa de banho. Lá ao fundo, o corredor era comprido, a meio do corredor escuro, estava um candeeiro aceso à entrada dum quarto. Porta aberta, quarto escuro, candeeiro no corredor, coisa estranha...
- Qu´esta merda?!
Lá de dentro, uma voz ensonada, respondeu. Reconheci a voz do Arlindo Tan-Tan:
- Ó pá, deixa estar, é para os mosquitos saírem do quarto!
Outro com uma forte pancada! Nada acontece por acaso! Fomos escolhidos a dedo! Estavam lançadas as bases de um futuro promissor, único. Decidi ali, naquele momento, que nunca pediria transferência de Universidade!
Joaquim Marques

3 comentários:

Noémia disse...

Chorei a rir ao recordar aquela do candeeiro no corredor, o alguidar na porta,... foram tantas, tantas e tantas que não sei se algum dia não haja histórias por contar.
Foi mt bom encontrar quem já não víamos há mais de vinte anos!
É como dizes, à parte dos cabelos brancos, estão tds na mesma. Lindos! Uns amores!
ADOREI e QUERO repetir no próximo ano.
BEIJOCAS da Nené.

Anónimo disse...

Já que falamos do Arlindo "tan-tan" é bom não esquecer os seus rituais da manhã, nomeadamente daquele que envolvia um minuscúlo frasco de perfume (essência?)patchouli. Cerimonial que fazia as delícias do colega de quarto, o Luís "pechinchinho" e que chamava todos os vizinhos de camarata para virem espreitar o Arlindo no acto solene de baixar a cueca e benzer os ditos cujos com o dito patchouli. Passados mais de vinte anos ainda consigo ouvir as gargalhadas do Luìs rebolando-se na cama e o ar convencido do "tan-tan".
Bem hajam
Zé António.

Teresa Valdiviesso disse...

fantástica história Marques, mesmo fantástica! Chorei a rir porque lembro bem esses personagens e a chegada dos caloiros do ano a seguir ao teu, do qual eu faço parte. ADOREI, Adorei...
beijinhos

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