Dia 05 de Janeiro de 1980, Sábado. A minha ansiedade estava ao rubro. Tinha decidido ir para Lisboa de combóio. A minha mãe já tinha falado ao Tio Ezequiel que morava em Benfica, lá para os lados do Cemitério de Benfica em Lisboa, que se prontificou a ir-me buscar ao Campo dos Mártires da Pátria onde parava habitualmente a camioneta da empresa Marques, uma empresa de Silgueiros, de uns primos afastados da família. Pernoitaria na casa dos Tios e no dia seguinte levavam-me ao aeroporto para apanhar o avião para os Açores. Mas como já era Sábado, o avião saía no dia seguinte, quis ficar mais uns instantes nas terras de Viriato, e decidi que o melhor era apanhar o combóio em Nelas, um Inter Regional que vinha de Vilar Formoso e chegava a Lisboa pelas 08 horas da manhã do dia seguinte, bastante a tempo de chegar a horas ao aeroporto da Portela.
Aproveitei a tarde para me despedir de alguns amigos da aldeia. No ano anterior tinha alargado o leque de amigos, é tradição da aldeia de Passos de Silgueiros, cujo padroeiro é S. Sebastião, que a festa em sua honra se faça todos os dias 20 de Janeiro pelos jovens que vão à inspecção militar no ano em que completam 20 anos. Fui, portanto, mordomo das festas no ano anterior, fizemos muitas actividades, inclusive umas peças de teatro, tudo para arranjar fundos para as festas e para comprar um pálio novo para a procissão. A estes amigos, uns mais humildes, outros nem tanto, quis dar um abraço – O Quinzinho não vai ficar para as festas de S. Sebastião?-- por deferência e costume da aldeia, tratavam pelo diminutivo as pessoas das famílias mais abastadas – Não, André, este ano não vai ser possível, mas nós já deixámos uma marca, os mordomos deste ano irão fazer igual ou até melhor!-- Tremiam-me as pernas, era difícil encobrir a ansiedade e o medo. Não senti saudades, sabia no meu intimo que o meu tempo ali terminara, uma vida nova estava à minha espera, noutras paragens, sem ter a certeza do que me esperava.
Mala feita, umas roupas e o meu tesouro, uma pequena pasta com alguns rabiscos que eu julgava poemas, uns desabafos que aprendi a escrever numas folhas brancas desde a adolescência, e um livro de poemas de Alberto Caeiro. A passagem aérea , seis contos em dinheiro, tudo já dentro da bagageira do Renault 10, azul claro, volante à direita, que o meu Pai tinha trazido de Moçambique. Lá fomos para Nelas, os quatro, depois da ceia, esperar o combóio.
A noite estava limpa e fria, um luar intenso, o cume da Serra da Estrela coberto de neve, brilhava ao luar. Perdi o nervosismo miudinho, já nem o frio me incomodava. Na gare da estação, já o combóio vinha a entrar, abracei a minha Mãe que chorava, a minha irmã, dois anos mais nova, também com lágrimas ao conto do olho, deu-me um beijo, e disse-lhes – não chorem, vai correr tudo bem-- por instantes, recordei-me da ultima e única vez que chorei quando me despedi dos meus familiares, tinha 7 anos, entrado para 1ª classe da escola primária em Moçambique, a casa dos meus pais ficava a 70 Km numa outra localidade sem escola. O meu Pai era funcionário dos Caminhos de Ferro de Moçambique, os comboios estavam-me, portanto, no sangue. Desde menino, todos os dias, ia para a escola de combóio e vinha, a primeira vez acompanhado, as seguintes sozinho. Tinha agora que iniciar a viagem para fora do ninho, evidentemente, de combóio! Abri a porta da carruagem, coloquei a mala, desci para o ultimo abraço ao meu Pai – Vai lá meu rapaz, quando lá chegares, abre uma conta no BNU que eu mando-te mais dinheiro-- e disse-me aquilo, no meio do abraço, já com a voz embargada.
Era meia noite em ponto. Lá fui eu ao encontro do meu futuro!
Faz hoje 30 anos que... continua.